Há décadas figuras notáveis da filosofia se negam a reconhecer essa instância a que chamamos metafísica. Além das espantosas consequências de tal negativa sobre a história do pensamento, podemos dizer, a título de ilustração, que isso arranca as pretensões mais petulantes de nossas árvores genealógicas em suas raízes últimas (ou primeiras, dependendo de se você vai de cá pra lá ou vem de lá pra cá). Ficam em pé de igualdade os estratos mais díspares da sociedade humana.
Explicando melhor: se as pessoa são corpos sensíveis e se as diferenças individuais resultam de contingências racional e circunstancialmente explicáveis, nada justifica a (ainda) rigidez das castas e classes sociais baseada em poder financeiro ou privilégios em relação aos menos dotados. A única hierarquia possível se sustentaria então em superioridades extrínsecas e acidentais – diferentes graus de instrução, expertises técnicas e profissionais, que podem conferir alguma autoridade funcional a determinadas pessoas. Essa hierarquia não confere a ninguém direitos humanos diferentes dos consagrados e universais.
Já ouço o alarido dos protestos. São senhoras da mais antiga aristocracia rural, cavalheiros formados em Harvard, gente com antepassados ilustres e até pessoas simples, legalistas, conservadores, seres medianos sem culpa no cartório, que não podem admitir ser postos em pé de igualdade com gentinha da classe D. Sem falar em cintilantes emergentes carregando seus pets perfumados, seguidas de maridos algo embaraçados pela atitude beligerante das consortes.
Mas tenham ou não razão os teóricos da não-transcendência, não adianta espernear: viemos todos do mesmo buraco, da ameba original, da água e da célula primeva. A partir daí tiveram início evoluções e equívocos em desenfreada corrida. Parece que a sentença mítica do Éden foi mais ou menos assim: "Do caos viestes, para o caos retornareis", e desde então homens e mulheres se empenham em construir para destruir, mentir até para si mesmos, abandonar quem depende de sua proteção, amar à beira do ódio – não necessariamente nessa ordem, mas com uma frequência assustadora em todos os tempos e lugares. Às vezes a própria construção já começa sem qualquer prognóstico favorável, como aconteceu com a torre de Babel e os prédios do Sérgio Naya, lembram dele?
Espécime ambíguo e pouco confiável que é o ser humano. Investimos recursos incomensuráveis para fazer a guerra – que é o jeito oficial e socialmente aprovado de dar vazão à fera que vive em nós. Os fora-da-lei apostam a vida – e de um modo ou de outro a perdem – no jogo da violência e da força bruta; outros, como os políticos desprezíveis e os servidores públicos de mau caráter que conhecemos tão bem, usam os cantos menos claros da lei para arquitetar golpes milionários, enquanto falta o mínimo para que tantos possam viver com decência. Quantas maneiras existem de matar?
Parece bem verdadeiro que o coração não se perturba com o que os olhos não veem. As equipes econômicas trabalham com abstrações e eternos métodos de ensaio-e-erro, dando seu jeito de fugir ao óbvio com ar de quem sabe tudo. Seus saberes passam ao largo das necessidades primárias de dar de comer a quem tem fome ou criar condições que facilitem a todas as camadas da sociedade o acesso a uma vida digna. Interesses mais altos se alevantam, e além disso existe esse ser metafórico e mutante a que chamamos mercado – álibi perfeito para legitimar a ganância dos mais fortes.
Enquanto isso – com a cabeça ainda povoada de transcendências esgarçadas – a gente cria programas inócuos de nomes tocantes, campanhas de efeito fugaz e abraça o Pão de Açúcar invocando a paz. Como se a paz fosse um orixá e não um estado de espírito. Ou então desloca a atenção para assuntos supostamente divertidos, como os atores ruins e os quartos da casa do bbb, quem vai posar para a decrépita Playboy ou o último namorado adolescente da atriz de 65.
Mas afinal, quem somos? Será que von Trier foi pessimista demais quando construiu sua Dogville?
Nada disso impede que a gente deseje um final de ano com alegrias, um 2010 de bons acontecimentos e - por que não? - que cresça o número de nossos amigos e que o amor nos traga paz e longas amostras de felicidade. Porque, mesmo capaz de tanta aleivosia, gente ainda é o que há de melhor no mundo.
















