As cores, assim como os sons, variam quase ao infinito. Tons e tonalidades são muito mais numerosos do que se imagina. O sol tem matizes e variações, é só prestar atenção para ver: o sol não mostra sempre a mesma face – às vezes está furioso e queima com raiva, mas às vezes acaricia a pele que nem homem enamorado. Os dias podem parecer iguais naquilo que os outros – do trabalho, da família, do governo, da comunidade – exigem da gente; mas nossa paisagem interna muda a cada hora do dia. É bom ficar atento a essas mudanças. As diferenças que uma pessoa apresenta ao longo da vida, dos anos e até das horas se explicam pelos sentidos, que deixam entrar sempre o que interessa mais no momento. Se digo “nunca”, e na mesma hora meus poros se abrem, é porque na verdade o nunca queria dizer outra coisa e não era tão definitivo como se supõe. Nunca é uma palavra com muitas frestas. Quantas vezes entendemos uma frase de um modo bem diferente do sentido que lhe quiseram dar, ou nosso olhar modifica uma imagem. É fácil enganar-se com as aparências; basta que nosso desejo (que tem raízes inconscientes) prefira se iludir ou interpretar a realidade a seu jeito.
Mais complicado é se comprometer com o sempre. Quem escolhe o sempre como norma de vida, às vezes precisa repensar suas posições, sob pena de virar pedra. Se decidi pertencer a um partido, uma escola filosófica, uma religião, minha opção pode valer – até para toda vida – contanto que eu não perca a capacidade de avaliar minhas posições com revisões periódicas. Se o partido mudar de direção e adotar posições com as quais não posso concordar, está na hora de discutir e, quem sabe, mudar de rumo. Modos de pensar, religiões e ideologias são obras humanas. Mesmo no caso das religiões, que se gabam de sua origem divina, as instituições são coisa de gente e falham; podem se tornar opressivas, formar pessoas preconceituosas e crueis, porque facilmente tendem ao que hoje chamamos de fundamentalismo.
Diferente de virar a casaca por conta de interesses imediatistas de dinheiro ou de poder, diferente de ser oportunista ou trair uma corporação por falta de lealdade, mudar nossas posições diante do mundo é um direito humano dos mais legítimos. O que não é justo nem salutar para ninguém é arrastar uma posição insatisfatória, permanecendo em um lugar que não seja o escolhido. Assim como a roupa deve ser agradável à vista mas também nos dar conforto e bem-estar, é bom ficar alerta e, se for preciso, procurar o solzinho que entra pelas frestas do nunca para ver mais claro. Ninguém consegue ser generoso ou solidário se andar pela vida dentro de uma camisa-de-força.
Foto H. Cartier-Bresson.







